Conto de Natal

O homem, curvado no amparo de tosco cajado, calcorreava o sendeiro com passos arrastados e rumo incerto.

O sol ameaçava recolher-se por detrás do recorte dos montes e ele sem vislumbrar sinal de povoado no vasto horizonte. Perdera-se, decerto, nos atalhos da serra, pensou.

Nenhuma descrição de foto disponível.É verdade que adormecera amolecido pelo aconchego de penedo soalheiro. Havia duas noites que mal pregara olho espicaçado pelo frio e a fome. O bafejo cálido de um límpido dia de sol em mais de uma semana de bruma fria e cerrada fora tentador. Tirara boa desforra do sono, dormindo até uma fresca aragem lhe provocar desagradáveis arrepios ao longo do corpo.  Acordara quando a obliquidade já tornava débeis os raios solares que cruzavam o planalto formando alon­gadas sombras. A noite não tardaria.

O viajante voltou a perscrutar, ansioso, o horizonte em busca de mancha negra de casario, mas só des­cor­tinava o cinza das penedias por entre o mar verde-escuro dos pinhais. Pareceu-lhe, contudo, perceber uma ténue coluna de fumo voluteando na brisa do entardecer. Dirigiu o seu passo lento nessa direção e não tardou a ver, lá mais para o vale, uma difusa névoa em cogumelo formada pelo esfumaçar das lareiras. Ordena aos pés cansados e doridos que se apressem. Chega ao fundo da aldeia quando o dia já não é dia e a noite ainda não é noite.

Boa hora para pedir uma esmola, pensa o transeunte: pessoas e animais aproveitam as últimas sobras de luz para se recolherem em casa e nos currais. No casario, adivinha o crepitar do lume pelo fumegar das chaminés e a ceia em andamento pelos cheiros que se libertam por portas e janelas pobremente calafetadas. E o crepúsculo disfarçará o seu aspeto andrajoso…

«Uma malguinha de caldo por alma de quem lá tem»; «uma esmolinha e que Deus a abençoe»; «uma codinha de pão, por Deus e pelas almas»…

Era boa hora, mau dia, porém.

As mulheres estavam na sua azáfama das rabanadas, sonhos, azevias, arroz-doce…

‒ Vai lá ver quem é, ordenavam as mães à enfarruscada criança que estivesse mais por perto.

‒ É um pedinte…

‒ Diz-lhe que hoje não dá…

Já os homens surpreendidos no arrumo e trato do vivo, limitavam-se a exclamar “ó homem de Deus, ainda nem entrei em casa…”, confirmando a negativa com um abanar de cabeça.

Quintã a quintã, porta a porta, já percorrera grande parte da aldeia e nem um pequeno naco de pão para amenizar o segundo dia de pleno jejum.  A noite caíra negra sobre o povoado apenas deixando difu­sas som­bras debaixo de um céu estrelado. Uma humi­dade fria, prenun­ciando farta geada, entrava-lhe pelos rasgos das vestes puídas.

“É melhor pensar em abrigo, que mais uma noite de barriga vazia parece coisa certa”.

E a tentação recor­rente invadia-o insidi­osa, insistente, em desespero. Bastava deixar que a sua opípara mão avara socorresse a sua mão pedinte. O bolso da ganância tinha ouro bastante para alimentar e reconfortar fartamente por um ano o seu corpo sofredor.

E, mais uma vez, esteve na iminência de ceder.

Mas logo foi sustido pela amarga lembrança do pobre homem encontrado defunto, de fome e frio, na berma da estrada e pela penitente sentença do santo homem: “mendicante serás até te ser reve­lado um coração inocente e compassivo que te liberte da avidez da tua alma”.

Os pés cansados e cobertos de chagas do mendigo não conseguiam acompanhar os raros lampiões que cruzavam as ruas e que apressavam o passo para se furtar àquela figura repugnante e suspeita. E as portas fechavam-se ligeiras à sua frente deixando-o a tatear as pedras da calçada.

Mais uma bruxuleante luz se aproximava…

Era uma pobre criança que soltou contido grito de medo ao ver um farrapo de gente destacando-se da escuridão.

‒ Não te assustes, apenas sou um pobre de Deus pedindo uma esmola ‒, sossegou o esmolante, mas já se afastava ao ver a criança amedrontada. Amedrontada e de aparência miserável: descalça e maltrapilha como ele. Se não se denunciasse, seria ele quem daria esmola a esta desafortunada menina que denotava padecer tantas carências quanto ele. Tinha, porém, uma expiação a cumprir, e já seguia caminho…

‒ Senhor pobre…, porque anda a pedir assim de noite? Está tanto frio e é a hora da ceia de Natal!

‒ Hoje a fortuna não me bafejou. Nem um cigalho de esmola recebi. Mas tens razão, menina, está muito frio. Não devias andar na rua assim tão tarde. Estás a tiritar de frio.

‒ Fui levar a ceia a minha avó que está acamada. Em casa tenho uma grande fogueira para me aquecer. Olhe, podia vir comigo. Também se aquecia e pedia à minha mãe para o deixar consoar connosco.

‒ Tens um lindo coração… Todavia, teus pais não aceitariam que entrasse em tua casa. Não vês a minha aparência?

‒ Aceitam. Eu peço-lhes. Eu suplico. Têm de aceitar…

‒ Então, acompanho-te até à porta de casa. Se teus pais tiverem uma fatia de pão, agradeço, pois é grande a míngua que padeço, mas não vou entrar. Não quero que teus pais se aborreçam contigo.

‒ Não se zangam. São pobres, mas gostam de me ver feliz.

Pela porta esburacada, o mendigo bem ouvia vozes em despique: uma voz meiga de mulher e uma voz insistente e suplicante de mocinha. Quis virar costas, não queria dar incómodo. A menina, contudo, merecia um agradecimento. Não tardaria a vir comunicar a recusa. Seria indelicado desaparecer sem se despedir e queria dizer-lhe que aquele gesto, aquela tentativa, já lhe acalentara a alma.

E a menina veio. Veio a correr, e do alto do patim gritou com entusiasmo para a sombra encolhida e envergonhada ao fundo das escadas:

‒ Venha, suba! Eu não disse?

A mãe da menina desfez-se em desculpas. Caldo e pão negro de centeio têm cabonde. Mas é uma casa de pobre: só há uma posta de bacalhau a dividir por todos; era sobretudo para dar gosto às couves e batatas na cozedura. Mas já colocou mais um ovo a cozer…

Foi a mais deliciosa e acolhedora ceia de Natal que o mendigo podia desejar e esperar. E já se preparava para deixar aquela generosa e feliz família em sossego para a noite, quando o pai da menina lhe diz que ia preparar enxerga de palha em canto da ucharia. Bem tentou declinar a oferta pois não queria dar mais incómodo e já levava consigo a preciosa vivência de uma singela e feliz ceia de Natal que só encontrava paralelo nas memórias da sua infância.

E no conforto da cama feita com braçado de palha nova, o vagabundo sentia, pela primeira vez em largo tempo, a felicidade de uma noite de afeto e um afável sentimento de ter encontrado o tesouro que procurava, enquanto revia a trágica história que dera origem à sua penosa expiação.

Apesar de ser agricultor abastado, senhor de vastas propriedades, despedira rudemente um vagabundo que lhe batera à porte, em gélida noite, a pedir abrigo e cibo de pão para mitigar a fome. Nem abrigo nos seus celeiros e palhais, nem as côdeas do açafate que atirava aos porcos. O pedinte, corpo frágil e vestes em farrapos, bem lamuriou a sua precária condição, mas o avaro lavrador manteve-se surdo a súplicas e escorraçou-o sob ameaça de lhe açular os cães.

E um servo que pela fria madrugada do dia seguinte se dirigia ao casario do rico proprietário deparou-se com o desventurado indigente caído na berma do caminho, já sem vida e alvescido pela copiosa geada que cobria o seu corpo e os campos em redor.

Num remoque de arrependimento, o lavrador corre a conselho de virtuoso eremita, guardião de pequena ermida que farolava o alto da serra.

O santo homem ouve-o atentamente e pers­cruta a sinceridade do remorso que enegrecia a alma arrependida.

– Vai, sentencia o anacoreta, vende a tua melhor várzea e entrega o produto da venda à guarda da tua mão avara; depois percorre montes e vales, esmolando, apenas com o sustento da tua mão pedinte. Assim lembrarás em cada dia de remissão que por cada mão fechada na sua opulência muitas outras mãos se estenderão vazias e famintas. Serás penitente, e o bolso abastado espicaçará o teu estômago vazio sem lhe poder valer, até que um inocente e generoso coração amacie e liberte o teu espírito ávido e empedernido. Só então poderás volver ao conforto da tua casa e à abastança das tuas herdades.

Manhã bem cedo, a menina acorda, desce as escadas a correr ao encontro do seu mendigo.

Mas nenhum sinal de pedinte. Em seu lugar, apenas uma bolsinha de pano e dentro um generoso punhado de moedas de ouro que o pai da menina logo avalia bastarem para mercar vasta courela capaz de garantir pão, de colheita a colheita, na mesa da sua humilde família.

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