Conto: O Audaz Gineto

A mãe gineta, diligente e precavida, programara a parição de suas crias para o despertar da primavera.

Assim foi; mal os primeiros calores de abril começaram a aquecer os montes, nascem três minúsculos e pelados gatinhos. Indefesos, são resguardados e aconchegados no recanto mais esconso do covil onde caldo ninho de pelos e fenos macios os mantêm quentes e protegidos. E quando os calores de maio tornam fartos os campos, já eles correm e cabriolam pelas cercanias do tugúrio.  Prudente, a mãe gineta elegera lugar recôndito da serra como lar e abrigo dos filhotes para precaver ou retardar confronto com bicho homem e seus temíveis ladrantes.

O filhote varão logo se destaca desinquieto e aventureiro. Tudo farisca e esgrelha; perscruta os sons mais subtis e distantes; audaz, não hesita em escalar agigantada árvore ou proeminente rochedo para explorar horizontes e vistas mais vastas. Atraía-o, em particular, aquele montículo de construções, lá em baixo, no valejo, de onde, ao anoitecer, sobem volúveis colunas de fumo e pela madrugada lhe chegam regularmente cocoroares intrigantes.

“Que é aquilo? Que cantares são aqueles?” Questiona com insistência o onzeneiro gineto.

“São os antros do bicho homem, o local mais perigoso da montanha. E aquele som mais não é que engodo para nos atrair às suas temíveis armadilhas”. Responde a mãe, inquieta com a curiosidade do pequeno gineto.

“Mas a bicharada diz por aí que junto dos humanos há fartança inesgotável …”

“E perigos de monta… A única coisa que devemos desejar do bicho homem é distância”.

O pequeno toirão foi crescendo ágil e arnaz. No princípio do inverno, era já gato pujante, transpirando confiança.

Com frios, geadas e nevadas, a escassez e a penúria abatem-se sobre a serra.

“Junto dos humanos há fartança…”; “gordas e tenras galinhas…” Eram dizeres que batucavam na cabeça do jovem gineto. Porém, as cautelas e as interdições da mãe, que não se cansava de hiperbolizar os perigos representados pela proximidade do bicho homem, faziam-no hesitar.

Mas sempre que a fome apertava, ele subia a árvore de boas vistas e espreitava, lá mais abaixo no fundo da encosta, aquele conjunto de estranhas construções. Parecia-lhe tudo tão pacífico, tão calmo, onde colunas de fumo subiam e voluteavam no ar até se espraiarem formando diáfano manto sobre o vale. O silêncio e o sossego apenas pareciam interrompidos por ecos longínquos, quase inaudíveis, de ladrares a despique. Eram esses os grandes perigos de que falava a mãe: “gineto onde cão fila os dentes jamais sai ileso”.

Ele sabia, porém, que aqueles bichos ferozes que acolitam os humanos são incapazes de trepar a muros e árvores, e era aí que estava a sua agilidade e vantagem. Imaginava, então, pracetas e eidos povoados por indefesas e incautas gomarras a esgravatar no terreio à cata de minhoca ou grão esquecido. Bastava chegar sorrateiro, pegar pelo gasganete a ave mais gorda, saltar uns muros e estava a salvo trazendo na boca um festim para dias.

Incapaz de resistir ao pungir da fome ali na serra e ao apelo da abastança lá no vale, pelo sigilo de certa fria noite, sem nada revelar à mãe, lança-se a caminho do povoado.

Que regalo! Logo à entrada do casario descobre, fareja e vê um varal abonado com meia dúzia de galinhas ao abrigo de cabanal.

A rede? Os humanos são uns ingénuos! Uma brincadeira para transpô-la.

Silencioso, patas de veludo, eficaz na arte de matar, célere, arrasta galinha anafada, filada pelo pescoço, que nem ela nem companheiras deram pelo ataque.

No primeiro pincho para transpor a vedação, a presa interpõe-se entre a rede e as garras; cai juntamente com a gomarra num restolhar de causar sobressalto. E logo um alão, vindo do nada e maticando belicosamente, se aproxima veloz. Já sem preia, quase a transpor o aramado, o mastim salta e abocanha-lhe uma perna atirando-o ao chão. Ligeiro, em desespero, ainda consegue fugir e enfiar-se em buraco do celeiro.

Espavorido, ferido e encurralado em apertada abertura, olha as ferozes mandíbulas prontas a abocanhá-lo e sente-se atordoado com aquele raivoso latir.

Pensa na mãe, nos seus afagos e prudentes conselhos. Agora sabe que eram prudentes e sábias exortações e não meros caprichos de uma mãe ciosa da sua prole. Pensa nas suas irmãs com quem brincava em alegres correrias pelos montes, e que sempre o advertiam para os perigos do seu imponderado arrojo.

Agora sabe quanto era insensato caçoar dos conselhos da mãe e das advertências das irmãs. Sim, agora sabe quanto foi precipitada e gananciosa a sua decisão de pilhar nutrida presa.

É, porém, um reconhecer que chega tarde e sem proveito. Um humano aproxima-se em passos ligeiros. Traz nas mãos objeto estranho, mas que ele não tarda em identificar como uma arma de trovão. Sente-se perdido. O caminho da fuga está barrado por uma besta feroz que em segundos o despedaçará, se ele ousar sair.

O humano chega, projeta um foco de luz para o esconderijo, aponta a arma e, indulgente e misericordioso, dá decisivo término aos medos e sofrimentos do intrépido gineto.

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